Em dias como esses, somos regidos pelos mais rústicos sentidos. Nosso ritmo é outro, é ditado pela batida dos pés, das vozes e de tudo mais que se possa ouvir, hoje com uma intensidade infinitamente maior. É fascinante essa outra visão de mundo que temos quando somos cegados não somos nós, não decidimos deixar de ver, foi nos imposto, é preciso ter um algo a mais para ver a beleza desses dias, sua complexa e insossa beleza.
Aos simpatizantes do sol vos digo, qual a magia existe em
dia de céu claro? O que resta de misterioso naquilo que se vê limpidamente? O dourar
do sol é indescritível, mas é algo além, é você, é o imaginar, ver até onde se
pode ir quando não se sabe em que direção está rumando. É o viver animal, em
instintos e não razão. É usufruir daquilo que a vida tem de melhor, o que seria
do homem sem a imaginação?
A imaginação é sim, e ao menos pra mim, a base da vida. Mãe da
curiosidade e pai da vontade é o sentimento, o dom que nos leva a ir atrás do
que se quer. Você não se apaixona por saber que será maravilhoso, se apaixona,
por imaginar o quão bom pode ser, e então a curiosidade lhe faz querer
experimentar, é ai que a sua vontade te leva até lá, até seu objetivo.
A névoa é o sinal, de que o dia, é o mais nosso de todos,
não há horizonte, não há um final do campo de visão, até mesmo porque esse não
existe, é tudo apenas uma tela em branco. Cabe a você pintar um dia melhor,
seus objetivos, pinte a alegria, pinte o amor. Pegue para você o seu dia, torne-o
colorido, ou deixe o escuro, há muito mais naquilo que não se pode ver do que
na clareza explicita.
Não só de alegria é feita a névoa. Existe o pânico, a
incerteza e perigo, que se fazem presentes em cada passo e em cada lembrança,
resgatadas dos mais antigos momentos, muitos deles não vivenciados, apenas
projeções de suas expectativas. O subconsciente trabalha adoidado, criando ilusões
amedrontadoras, baseadas em todos aqueles filmes que já viste. É impossível não
lembrar daquelas histórias de monstros que lhe foram contadas nos seus mais
diversos momentos da infância.
A névoa toma conta de si. O inimaginável está ai, diante de
seus olhos, mas oculto pela névoa esbranquiçada que toma conta dos corpos. É perigoso
não saber o que se encontra na nevoa, e nos tornamos expectadores de nosso
medo. A mente já tomada por diferentes pensamentos trabalha freneticamente para
saber o que esta no meio da total brancura, os sentidos lúcidos se vão e
ficamos alienados em um mundo descrito por nos mesmos. Sozinho em um lugar
diferente, criamos completas distorções do mundo real, trazendo para nossa realidade
coisas incapazes de existir.
O coração acelerado saltando pela boca, os olhos
amedrontados procurando sair dali, o medo tomando conta do corpo. Um cheiro
fétido exalado no ar, frio que arrepia a espinha, mãos tremulas e um sentimento
de tristeza invadindo-nos. Não há descrição para o quão ruim é ficar em meio à
neblina sem consolo e até mesmo sem razão dos próprios atos.
O cenário obscuro e frio esconde sons misteriosos, criaturas
em pranto e desejos moribundos. Transforma
uma manhã de sol em um completo pesadelo horrendo, onde a alma congela a dor em
si. Traz momentos já esquecidos para nossa memoria, fazendo-nos relembrar cada
segundo da tormenta.
Espera-se presenciar o sobrenatural, teme-se vivenciá-lo
torna-se confuso decifrar as sensações, é o pânico de não ter certeza. Invasões
alienígenas, a aniquilação da vida, tudo parece muito possível. Mas com
certeza, a ficção não e o ápice do seu medo. Você teme muito mais aqueles
assassinos, disfarçados no seu grupo de amigos, que hoje, jamais serão
revelados, eles surgem do nada, te fazem estar onde eles querem, e hoje, nem
você sabe onde está.
Há uma certa resistência em atender ao telefone, afinal,
muito trabalhadas as ligações da morte, de todas aquelas pessoas que você tentava
salvar enquanto gritava e xingava nos filmes de terror. Não há telas, não há roteiro,
impossível dar pause ou fechar os olhos em busca de fugir da agonia, é pra
valer, ainda mias se a arte realmente imitar a vida, então, tudo isso existe, e
esta em algum lugar.
Você se sente fraco e vulnerável. Esta sozinho em meio à
multidão, parece ouvir as musicas que emocionam enquanto agonizas até a morte,
parece estar sendo apunhalado, e ninguém lhe vê. Podes sentir a dor de ter as vísceras
arrancadas, a agonia, a inquietude, é tudo muito real, são pesadelos, é estar
sonhando acordado. Já era para tudo ter passado, mas ela continua lá, branca e
imponente, tanto quanto antes, não parece ter fim, parece se fortalecer à
medida que nos assombra.
Você pode se trancar dentro de casa, mas, ela já pode estar
lá, com todo que cabe nela. É então que há motivos para o desespero, ela te
cerca. O barulho lá fora se torna suspeito, é ensurdecedor, tal qual a
inquietude demasiada. Torna-se viciante, é um jogo bobo, nem mesmo existe, mas
é muito real na sua cabeça. É a sua imaginação, são os seus medos, que vem
suprir a falta da sua visão, que não passa da janela, na qual temes ver algo
que não queira, mas ao mesmo tempo lhe excita a ideia de adrenalina e risco.
A névoa continua ali, pronta para que você a aprecie, ou
evite. Ela continua branca como a mais alta das nuvens, como a mais densa
condensação do medo. Ela é a lacuna deixada pela incerteza, ela não explica,
não dá respostas. Ela espera e exige as suas conclusões, do que cabe nela pelo
olhar da sua mente. Se enxergas amor ou ódio, se vês a praia ou o pântano. Procure
na sua mente, a sua névoa é rica, é de pessoas ou fantasmas, alegria ou
tristeza, é o que quiser. É o medo de amar, ou o amor pelo medo. Apenas escolha.
Texto realizado em parceria com Cassiano, do blog: http://songsandfeelings.blogspot.com.br/ , dá uma olhadinha lá!

